Dor crônica · Leitura de estudo

Treinar pelo plano ou pela dor?

O que mostrou um ensaio clínico com 120 pessoas com dor crônica no pescoço, o que ele não mostrou e como ler os números.

Samuel Vilela, CREF 009896-G/MS · Estudo: Malfliet et al., 2025, JAMA Network Open

Em cinco pontos
  • Ensaio clínico randomizado com 120 adultos com dor crônica no pescoço após lesão em chicote, em três hospitais da Bélgica.
  • Um grupo ajustava o exercício pela dor. O outro seguia um plano definido por tempo, com educação em neurociência da dor e manejo de estresse. A quantidade de sessões foi a mesma.
  • Na medida principal, a incapacidade aos 6 meses, a diferença entre os grupos não foi significativa.
  • A intensidade da dor caiu de forma parecida nos dois grupos. O medo relacionado à dor caiu mais no grupo do plano, em todos os momentos, mas essa foi uma análise secundária.
  • O estudo é útil como hipótese, não como prova: os participantes sabiam o que recebiam, as medidas eram questionários e houve muitas comparações sem correção.

A pergunta

Quando alguém com dor crônica treina, existe um critério implícito quase sempre: se dói, a carga diminui ou o exercício para. Na literatura isso se chama exercício symptom-contingent, ou seja, condicionado ao sintoma. A alternativa é o exercício time-contingent: a progressão segue um plano combinado antes (tempo, repetições, carga), e a dor deixa de ser o único sinal que decide o que acontece na sessão.

A equipe de Anneleen Malfliet testou essa segunda abordagem junto com educação em neurociência da dor e manejo de estresse, e chamou o pacote de MPNA. A comparação foi com o cuidado usual (UC): educação com explicação biomédica e exercício guiado pela dor.1

Educação em neurociência da dor: sessões que explicam como o sistema nervoso produz e modula a dor, com a ideia central de que dor não é uma medida direta de dano no tecido. No estudo, foram 3 sessões, 2 horas no total.1

Como o estudo foi feito

Foram 120 participantes, 60 por grupo, com idade média de 41,4 anos (DP 11,3) e 74,2% de mulheres, recrutados entre 2017 e 2022.2 Os dois grupos fizeram 18 sessões individuais em 16 semanas: 3 de educação e 15 de exercício. Cada fisioterapeuta atendia só um dos grupos, o que evita que a mesma pessoa misture as duas abordagens.1

O ponto forte do desenho é este: a dose foi a mesma dos dois lados. O que mudou foi o conteúdo da educação e o critério de progressão do exercício. Assim, uma diferença entre os grupos não pode ser atribuída a um grupo ter recebido mais atenção.

A randomização foi gerada por computador, em blocos estratificados por centro, com envelopes opacos selados. Isso protege o sigilo de alocação: quem incluía o participante não sabia para qual grupo ele iria.3 Avaliadores e estatístico não sabiam o grupo de cada pessoa. Os participantes sabiam qual tratamento recebiam, mas não qual era a hipótese.3

As medidas foram feitas no início, ao fim do tratamento, aos 6 e aos 12 meses. A medida principal, definida antes do estudo começar, foi a incapacidade aos 6 meses, pelo Neck Disability Index (NDI).4

Neck Disability Index (NDI): questionário de 0 a 50 sobre o quanto a dor no pescoço atrapalha atividades do dia a dia. Acima de 15 indica incapacidade. A diferença mínima que os autores consideraram clinicamente importante (MCID) foi de 3,5 pontos: abaixo disso, mesmo uma diferença estatisticamente real provavelmente não muda nada que o paciente perceba.4

O que aconteceu

Incapacidade: a medida principal não mostrou diferença

Os dois grupos melhoraram. O NDI caiu 5,74 pontos (33,3%) no grupo do plano e 3,22 pontos (15,8%) no grupo guiado pela dor.5 Mas a pergunta do estudo não é se cada grupo melhorou, e sim se um melhorou mais que o outro. Aos 6 meses, a diferença entre eles foi de 2,38 pontos, com intervalo de confiança de 95% de −0,12 a 4,89 e P = .15.6

Plano (MPNA)Guiado pela dor (UC)
0 5 10 15 20 25 Início Fim do tratamento 6 meses 12 meses Neck Disability Index (0 a 50) Início: 19,72 Fim do tratamento: 16,5 6 meses: 16,62 12 meses: 17,35 Início: 18,69 Fim do tratamento: 12,95 6 meses: 14,23 12 meses: 13,83
Incapacidade (Neck Disability Index, 0 a 50; quanto menor, melhor). Médias por momento. Faixa cinza: a medida principal, aos 6 meses. Baseado na Tabela 3 de Malfliet et al., 2025, p. 8 · CC BY 4.0.

Logo após o tratamento e aos 12 meses, a diferença foi significativa a favor do plano: 3,55 pontos (IC 95% 1,12 a 6,26; P = .006) e 3,54 pontos (IC 95% 0,81 a 6,28; P = .02).7 Os dois valores ficam praticamente em cima da MCID de 3,5, e o limite inferior dos intervalos fica bem abaixo dela. Quando os autores ajustaram a análise pela incapacidade de cada pessoa no início, as diferenças diminuíram e ficaram abaixo da MCID nos três momentos.8

Intervalo de confiança (IC 95%): a faixa de valores compatíveis com os dados para a diferença real entre os grupos. Aos 6 meses ele vai de −0,12 a 4,89. Como inclui o zero, o estudo não consegue descartar que a diferença real seja nenhuma. Mas ele também inclui valores acima de 3,5. Por isso a leitura correta é "o estudo não conseguiu mostrar diferença", e não "o estudo mostrou que não há diferença".

Dor: caiu igual nos dois grupos

A intensidade da dor, numa escala de 0 a 10, não diferiu entre os grupos em nenhum momento até 12 meses.9

Plano (MPNA)Guiado pela dor (UC)
0 2 4 6 8 10 Início Fim do tratamento 6 meses 12 meses Intensidade da dor (0 a 10) Início: 5,51 Fim do tratamento: 3,95 6 meses: 3,87 12 meses: 4,33 Início: 5,44 Fim do tratamento: 3,28 6 meses: 4,14 12 meses: 4,2
Intensidade da dor (0 a 10). Médias por momento. Baseado na Tabela 3 de Malfliet et al., 2025, p. 8 · CC BY 4.0.

Medo relacionado à dor: caiu mais no grupo do plano

O medo e a ansiedade ligados à dor, medidos pelo PASS-20 (0 a 100), caíram mais no grupo do plano em todos os momentos: 11,26 pontos de diferença ao fim do tratamento, 9,17 aos 6 meses e 11,05 aos 12 meses.10 É o resultado mais consistente do estudo, mas é um desfecho secundário. O estudo não foi dimensionado para ele, e os próprios autores chamam esses achados de explorativos.10

Plano (MPNA)Guiado pela dor (UC)
0 10 20 30 40 Início Fim do tratamento 6 meses 12 meses PASS-20 (0 a 100) Início: 35,49 Fim do tratamento: 29,64 6 meses: 30,73 12 meses: 32,49 Início: 31,43 Fim do tratamento: 18,37 6 meses: 21,55 12 meses: 21,44
Medo e ansiedade relacionados à dor (PASS-20, 0 a 100). Médias por momento. Baseado na Tabela 3 de Malfliet et al., 2025, p. 8 · CC BY 4.0.
Desfecho primário e secundário: o primário é a pergunta principal, definida antes, e é para ela que se calcula quantas pessoas o estudo precisa. Os secundários são medidos junto, mas sem esse cálculo. Um resultado secundário positivo serve para gerar a próxima pergunta, não para responder a atual.

Os outros números

MedidaResultadoComo ler
Pessoas sem dor ao fim (0 ou 1 de 10)23,3% × 5,0%Contagem descritiva, sem teste estatístico, fora do plano de análise11
Custo por participanteUS$ 854 a menos no MPNAExplorativo, com 81 dos 120 participantes12
Qualidade de vida, catastrofizaçãosem diferençaEntre grupos, em nenhum momento9

A interpretação dos autores resume bem o que os dados permitem levantar: as pessoas podem ter menos incapacidade, medo e ansiedade sem necessariamente relatar menos dor.13

"patients can experience less disability, fear, and anxiety without necessarily reporting lower pain levels."

Os cuidados na leitura

Algumas limitações os autores reconhecem. Outras aparecem quando se compara o artigo com o protocolo e com os suplementos.

O que o estudo não diz

O que eu levo para o treino

Um estudo com resultado principal negativo e achados secundários consistentes não muda a prática sozinho, mas ajuda a pensar. O que tiro dele é que dor e capacidade não andam necessariamente juntas: neste estudo, o medo e a limitação melhoraram mais num grupo sem que a dor tenha caído mais. Por isso, no planejamento, a dor entra como uma informação importante, mas não como o único critério para decidir se o treino avança.

A forma de progredir continua dependendo de cada pessoa. É para isso que serve a avaliação.

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Referência

Malfliet, A., Lenoir, D., Murillo, C., Huysmans, E., Cagnie, B., Meeus, M., Willaert, W., Ickmans, K., Danneels, L., Bontinck, J., Nijs, J., & Coppieters, I. (2025). Pain science education, stress management, and cognition-targeted exercise therapy in chronic whiplash disorders: A randomized clinical trial. JAMA Network Open, 8(8), e2526674. https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2025.26674

Notas

Páginas do artigo em PDF (numeradas de 1 a 17). "Supl." indica os suplementos publicados com o artigo.

  1. Malfliet et al., 2025, p. 3-4 (descrição das intervenções). ↩
  2. Malfliet et al., 2025, p. 1, 3 e 5. ↩
  3. Malfliet et al., 2025, p. 3 (randomização e cegamento) e p. 12 ("triple-blind"). ↩
  4. Malfliet et al., 2025, p. 3; protocolo, Supl. 1, p. 2. ↩
  5. Malfliet et al., 2025, p. 1 e 5. ↩
  6. Malfliet et al., 2025, p. 1 e 5; Tabela 3, p. 8. ↩
  7. Malfliet et al., 2025, p. 1; Tabela 3, p. 8. ↩
  8. Malfliet et al., 2025, Supl. 2, eTable 7, p. 24: T1 −3,09; T2 −1,92; T3 −3,16. O texto do artigo diz que essa análise "showed no notable findings" (p. 10). ↩
  9. Malfliet et al., 2025, p. 1; Tabela 3, p. 8. ↩
  10. Malfliet et al., 2025, p. 7; Tabela 3, p. 8. Tamanhos de efeito (d de Cohen) de 0,906 a 1,112. Sobre o caráter explorativo dos desfechos secundários, p. 12. ↩
  11. Malfliet et al., 2025, p. 1 e 7. ↩
  12. Malfliet et al., 2025, p. 10. Análise com 81 participantes, após excluir 7 com custos extremos. ↩
  13. Malfliet et al., 2025, p. 11 (Discussão). ↩
  14. Malfliet et al., 2025, p. 12 (Limitações): "Multiple testing correction was not applied" e "the observed findings are explorative". ↩
  15. Malfliet et al., 2025, Tabela 3, nota c, p. 10. ↩
  16. Malfliet et al., 2025, Supl. 2, eTable 6, p. 23. ↩
  17. Malfliet et al., 2025, Tabela 1, p. 5, e Tabela 2, p. 6. ↩
  18. Protocolo do estudo, Malfliet et al., 2025, Supl. 1, p. 9. Registro: ClinicalTrials.gov NCT03239938. ↩
  19. Malfliet et al., 2025, p. 13 (declaração de conflito de interesse). ↩