- Ensaio clínico randomizado com 120 adultos com dor crônica no pescoço após lesão em chicote, em três hospitais da Bélgica.
- Um grupo ajustava o exercício pela dor. O outro seguia um plano definido por tempo, com educação em neurociência da dor e manejo de estresse. A quantidade de sessões foi a mesma.
- Na medida principal, a incapacidade aos 6 meses, a diferença entre os grupos não foi significativa.
- A intensidade da dor caiu de forma parecida nos dois grupos. O medo relacionado à dor caiu mais no grupo do plano, em todos os momentos, mas essa foi uma análise secundária.
- O estudo é útil como hipótese, não como prova: os participantes sabiam o que recebiam, as medidas eram questionários e houve muitas comparações sem correção.
A pergunta
Quando alguém com dor crônica treina, existe um critério implícito quase sempre: se dói, a carga diminui ou o exercício para. Na literatura isso se chama exercício symptom-contingent, ou seja, condicionado ao sintoma. A alternativa é o exercício time-contingent: a progressão segue um plano combinado antes (tempo, repetições, carga), e a dor deixa de ser o único sinal que decide o que acontece na sessão.
A equipe de Anneleen Malfliet testou essa segunda abordagem junto com educação em neurociência da dor e manejo de estresse, e chamou o pacote de MPNA. A comparação foi com o cuidado usual (UC): educação com explicação biomédica e exercício guiado pela dor.1
Como o estudo foi feito
Foram 120 participantes, 60 por grupo, com idade média de 41,4 anos (DP 11,3) e 74,2% de mulheres, recrutados entre 2017 e 2022.2 Os dois grupos fizeram 18 sessões individuais em 16 semanas: 3 de educação e 15 de exercício. Cada fisioterapeuta atendia só um dos grupos, o que evita que a mesma pessoa misture as duas abordagens.1
O ponto forte do desenho é este: a dose foi a mesma dos dois lados. O que mudou foi o conteúdo da educação e o critério de progressão do exercício. Assim, uma diferença entre os grupos não pode ser atribuída a um grupo ter recebido mais atenção.
A randomização foi gerada por computador, em blocos estratificados por centro, com envelopes opacos selados. Isso protege o sigilo de alocação: quem incluía o participante não sabia para qual grupo ele iria.3 Avaliadores e estatístico não sabiam o grupo de cada pessoa. Os participantes sabiam qual tratamento recebiam, mas não qual era a hipótese.3
As medidas foram feitas no início, ao fim do tratamento, aos 6 e aos 12 meses. A medida principal, definida antes do estudo começar, foi a incapacidade aos 6 meses, pelo Neck Disability Index (NDI).4
O que aconteceu
Incapacidade: a medida principal não mostrou diferença
Os dois grupos melhoraram. O NDI caiu 5,74 pontos (33,3%) no grupo do plano e 3,22 pontos (15,8%) no grupo guiado pela dor.5 Mas a pergunta do estudo não é se cada grupo melhorou, e sim se um melhorou mais que o outro. Aos 6 meses, a diferença entre eles foi de 2,38 pontos, com intervalo de confiança de 95% de −0,12 a 4,89 e P = .15.6
Logo após o tratamento e aos 12 meses, a diferença foi significativa a favor do plano: 3,55 pontos (IC 95% 1,12 a 6,26; P = .006) e 3,54 pontos (IC 95% 0,81 a 6,28; P = .02).7 Os dois valores ficam praticamente em cima da MCID de 3,5, e o limite inferior dos intervalos fica bem abaixo dela. Quando os autores ajustaram a análise pela incapacidade de cada pessoa no início, as diferenças diminuíram e ficaram abaixo da MCID nos três momentos.8
Dor: caiu igual nos dois grupos
A intensidade da dor, numa escala de 0 a 10, não diferiu entre os grupos em nenhum momento até 12 meses.9
Medo relacionado à dor: caiu mais no grupo do plano
O medo e a ansiedade ligados à dor, medidos pelo PASS-20 (0 a 100), caíram mais no grupo do plano em todos os momentos: 11,26 pontos de diferença ao fim do tratamento, 9,17 aos 6 meses e 11,05 aos 12 meses.10 É o resultado mais consistente do estudo, mas é um desfecho secundário. O estudo não foi dimensionado para ele, e os próprios autores chamam esses achados de explorativos.10
Os outros números
| Medida | Resultado | Como ler |
|---|---|---|
| Pessoas sem dor ao fim (0 ou 1 de 10) | 23,3% × 5,0% | Contagem descritiva, sem teste estatístico, fora do plano de análise11 |
| Custo por participante | US$ 854 a menos no MPNA | Explorativo, com 81 dos 120 participantes12 |
| Qualidade de vida, catastrofização | sem diferença | Entre grupos, em nenhum momento9 |
A interpretação dos autores resume bem o que os dados permitem levantar: as pessoas podem ter menos incapacidade, medo e ansiedade sem necessariamente relatar menos dor.13
"patients can experience less disability, fear, and anxiety without necessarily reporting lower pain levels."
Os cuidados na leitura
Algumas limitações os autores reconhecem. Outras aparecem quando se compara o artigo com o protocolo e com os suplementos.
- Participantes sabiam o que recebiam, e as medidas eram questionários respondidos por eles. O estudo se descreve como triplo-cego, mas isso vale para avaliador e estatístico, não para quem preenche o questionário.3 Expectativa pode mexer em resposta autorrelatada.
- Muitas comparações. Foram 21 desfechos em até 4 momentos, e os autores escrevem que não aplicaram correção para comparações múltiplas.14 A nota da Tabela 3, por outro lado, fala em correção de Bonferroni.15 A leitura mais provável é que a correção foi feita entre os momentos de cada desfecho, e não entre os 21 desfechos. O artigo não deixa isso claro. Com tantos testes, alguns resultados significativos aparecem por acaso.
- Perda desigual de participantes. Aos 6 meses faltavam questionários de 19 dos 60 no grupo do plano e de 13 dos 60 no grupo guiado pela dor.16
- Diferenças no início. O grupo guiado pela dor começou com mais medo (PASS 35,8 × 31,6), mais sinais de sensibilização central, mais pessoas afastadas do trabalho (20,0% × 6,7%) e mais processos de seguro (38,3% × 28,3%).17 Isso pode favorecer o grupo do plano.
- Comparação dentro do grupo usada como argumento. Na discussão, os autores destacam que o grupo do plano passou da MCID aos 6 meses e o outro não.13 Essa é uma comparação de cada grupo consigo mesmo e não substitui a comparação entre grupos, que foi negativa.
- O que o protocolo previa e não apareceu. O protocolo registrado previa relatar a porcentagem de pacientes que passaram da MCID na medida principal.18 O artigo relata, no lugar, a porcentagem de pessoas sem dor, que não estava no plano de análise.11
- Conflito de interesse. Dois autores têm um livro sobre educação em neurociência da dor, com royalties para a instituição.19 Não invalida o estudo, mas é um dado que o leitor precisa ter.
O que o estudo não diz
- Que educação em dor reduz a dor. A intensidade da dor não diferiu entre os grupos.
- Que o resultado vale para qualquer dor crônica. A amostra é de dor no pescoço após lesão em chicote, em adultos de 18 a 65 anos, na Bélgica.
- Qual parte funcionou. Educação, manejo de estresse e exercício vieram juntos, como pacote.
- Que a fisioterapia comum não funciona. O grupo guiado pela dor também melhorou.
- Nada específico sobre treino de força. A diferença entre os grupos foi o critério de progressão e a educação, não o tipo de exercício.
O que eu levo para o treino
Um estudo com resultado principal negativo e achados secundários consistentes não muda a prática sozinho, mas ajuda a pensar. O que tiro dele é que dor e capacidade não andam necessariamente juntas: neste estudo, o medo e a limitação melhoraram mais num grupo sem que a dor tenha caído mais. Por isso, no planejamento, a dor entra como uma informação importante, mas não como o único critério para decidir se o treino avança.
A forma de progredir continua dependendo de cada pessoa. É para isso que serve a avaliação.
Na consultoria, o treino é planejado a partir da sua avaliação. Se quiser saber como funciona, envie CONSULTORIA no direct do Instagram.
Referência
Malfliet, A., Lenoir, D., Murillo, C., Huysmans, E., Cagnie, B., Meeus, M., Willaert, W., Ickmans, K., Danneels, L., Bontinck, J., Nijs, J., & Coppieters, I. (2025). Pain science education, stress management, and cognition-targeted exercise therapy in chronic whiplash disorders: A randomized clinical trial. JAMA Network Open, 8(8), e2526674. https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2025.26674
Páginas do artigo em PDF (numeradas de 1 a 17). "Supl." indica os suplementos publicados com o artigo.
- Malfliet et al., 2025, p. 3-4 (descrição das intervenções). ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 1, 3 e 5. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 3 (randomização e cegamento) e p. 12 ("triple-blind"). ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 3; protocolo, Supl. 1, p. 2. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 1 e 5. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 1 e 5; Tabela 3, p. 8. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 1; Tabela 3, p. 8. ↩
- Malfliet et al., 2025, Supl. 2, eTable 7, p. 24: T1 −3,09; T2 −1,92; T3 −3,16. O texto do artigo diz que essa análise "showed no notable findings" (p. 10). ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 1; Tabela 3, p. 8. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 7; Tabela 3, p. 8. Tamanhos de efeito (d de Cohen) de 0,906 a 1,112. Sobre o caráter explorativo dos desfechos secundários, p. 12. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 1 e 7. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 10. Análise com 81 participantes, após excluir 7 com custos extremos. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 11 (Discussão). ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 12 (Limitações): "Multiple testing correction was not applied" e "the observed findings are explorative". ↩
- Malfliet et al., 2025, Tabela 3, nota c, p. 10. ↩
- Malfliet et al., 2025, Supl. 2, eTable 6, p. 23. ↩
- Malfliet et al., 2025, Tabela 1, p. 5, e Tabela 2, p. 6. ↩
- Protocolo do estudo, Malfliet et al., 2025, Supl. 1, p. 9. Registro: ClinicalTrials.gov NCT03239938. ↩
- Malfliet et al., 2025, p. 13 (declaração de conflito de interesse). ↩
